A Google mantém-se reservada em relação a muitos detalhes que envolvem o funcionamento interno do YouTube. De acordo com especialistas, isso é um problema, dada a enorme abrangência e influência global da plataforma. Mas agora, graças a uma abordagem de investigação inovadora, foi possível apurar números concretos sobre a plataforma.
Uma equipa de investigadores da Universidade de Massachusetts Amherst, liderada por Ethan Zuckerman, criou uma abordagem engenhosa para conseguir obter dados sobre YouTube que a empresa não revela. A equipa desenvolveu um programa que essencialmente “advinha” URL de vídeos aleatórios até tropeçar em uploads legítimos.
Cada vez que um vídeo é carregado para o YouTube é-lhe atribuído um identificador único de 11 caracteres dentro de um formato de URL padrão (por exemplo: www.youtube.com/watch?v=vPOhoud5NIM ). O programa, que é essencialmente um scraper, gera aleatoriamente essas sequências de caracteres e verifica se há correspondências. Essencialmente, é como telefonar para números aleatórios para ver se alguém atende. O método funciona mais requer milhares de milhões de tentativas antes de conseguir chegar a vídeos reais.
A BBC diz que, para o conjunto de dados inicial, os investigadores tentaram mais de 18 biliões de potenciais URL, identificando pouco mais de 10.000 vídeos reais. Isto traduz-se em aproximadamente 1,87 mil milhões de tentativas falhadas para cada descoberta bem-sucedida. Se esta pesquisa fosse feita manualmente, gastando três segundos por tentativa, levaria cerca de 178 anos para descobrir um único vídeo.
Desde logo, a investigação estima que em meados de 2024, o YouTube albergava um total de 14,8 mil milhões de vídeos. O que não é surpreendente é que a maioria desses vídeos quase não é notada. Em média, um vídeo carregado para o YouTube tem apenas 41 visualizações, com 4% a não obterem visualizações. Mais de 74% não têm comentários e 89% não têm gostos.
Os valores de produção também são notavelmente modestos. Apenas 14% dos vídeos apresentam um cenário ou fundo profissional. Apenas 38% mostram sinais de edição. Mais de metade tem imagens tremidas e a qualidade do áudio varia muito em 85% dos vídeos. De facto, 40% são simplesmente faixas de música sem voice-over.
Além disso, o vídeo típico do YouTube tem apenas 64 segundos de duração e mais de um terço tem menos de 33 segundos.
Estes números mostram um quadro muito diferente de como o YouTube se descreve. A plataforma originalmente auto-intitulava-se como um espaço para pessoas comuns “se transmitirem”, mas essa mensagem mudou desde então.
O CEO do YouTube, Neal Mohan, descreveu recentemente o seu papel em permitir que influencers construam carreiras, afirmando que “os YouTubers estão a tornar-se as startups de Hollywood”.
No entanto, Ryan McGrady, um investigador na equipa de Zuckerman, disse à BBC que essa narrativa ignora uma realidade crucial: o YouTube não é apenas um centro de entretenimento – tornou-se uma forma de infraestrutura digital.
Para ilustrar: apenas 0,21% dos vídeos amostrados incluíam qualquer tipo de patrocínio ou publicidade. Apenas 4% tinham chamadas à acção comuns, como gostar, comentar e subscrever. A grande maioria não eram conteúdos polidos, mas sim expressões pessoais – talvez não tão diferentes dos velhos tempos das câmaras de vídeo.